terça-feira, 4 de agosto de 2020

Estrela 20 - Copernicia macroglossa

Motivado pelo aniversário número 111 de nosso saudoso mestre, resolvi, depois de muito tempo, acrescentar mais um capítulo à serie Estrelas do Sítio Burle Marx.

Trata da ‘palmeira lava-a-jato’. Não! Nada a ver com a operação que desmontou um grande esquema criminoso em nosso país. Foi apenas o aspecto da palmeira que sugeriu este apelido.

Um visitante reparou que ela parecia com aqueles grandes rolos verticais que, girando, fazem a lavagem de carros nos postos de gasolina. Como as folhas secas da palmeira permanecem durante muito tempo agarradas ao tronco, sua aparência também resultava num cilindro felpudo.



No final dos anos 70, Burle Marx ganhou do então presidente do IPHAN, Renato Soeiro, uma fachada de pedra que ficava na Rua de São Bento, próxima à Praça Mauá. Soeiro disse que Roberto era o único “maluco suficiente” que ele conhecia, para salvar da demolição o belo trabalho de 40m x 8m em cantaria.

Roberto teve, talvez naquele momento, a ideia de construir seu atelier com esta fachada. 

O local escolhido foi uma clareira, na cota 50m do morro, reservada para o plantio de Zoysia matrella - uma grama nobre que só Roberto tinha na época e que usava em projetos muito especiais.

Para fazer uma maquete do atelier, que finalmente teve projeto de Acácio Gil Borsoi, fui ao Sítio onde Roberto mostrou a área e disse algo que me fez perceber o apreço que ele dedicava à estrela deste capítulo: “- Para fazer meu atelier, retiro qualquer árvore daqui, menos esta palmeira”. E apontou para uma touceira que ele chamava de Copernicia torreana e que na época tinha meio metro de altura no máximo.


E assim foi feito. O atelier passa rente a ela.

Em 1995 – eu acabara de me tornar diretor do Sítio –, inspecionando um de seus sombrais (sombral é aquilo que em Lisboa poderiam chamar de estufa-fria), estarreci ao ver que havia duas mudas dessa mesmíssima palmeira em latas, pedindo pelo amor de Deus para serem libertadas e plantadas em algum lugar que permitisse sua expansão vital. Considerei a importância do achado, a urgência que ele demandava e escolhi um lugar próximo àquela que Roberto apontara no morro.

Este episódio é mais um dos inúmeros a ilustrar como a manutenção paisagística de objetos tombados precisa ser diferente das de obras de arquitetura e de arte estáticas, nas quais "se o autor não está mais presente, não se pode mudar nada".

Passado algum tempo, a palmeira mudou de nome, para Copernicia macroglossa, e continua firme junto a suas novas companheiras, mas já perdeu a longa saia de folhas que lhe granjeou o apelido.

Os americanos a chamam (ou chamavam) de petticoat palm tree, isto é, palmeira de anáguas, coisa que pouca gente hoje sabe o que é.

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